'Mais uma daquelas situações que acontecem sem a gente perceber e que, um belo dia, se repetem com uma qualidade de detalhes incontestável'
Segunda-feira.
O que te faz acordar logo pela manhã também te faz ter a vontade de não levantar da cama. Essa lógica pode ser tão banal quanto a teoria da relatividade mas tem uma beleza infindável.
A garota deveria estar de pé ás 9 e pouco, quase 10. A mãe marcara médico para ela, cardiologista, por acreditar que a filha tem uma vida deveras agitada, cheia de estudos e trabalhos adoráveis. Devido à rotina da filha - que tem início sexta-feira pela noite com o 'mãe-tô-saindo-não-tenho-hora-prá-voltar' -, a mentora viu necessidade em marcar-lhe uma consulta naquele que cuida de todas as mazelas do coração. Não dessas dores que são doídas de amor ou paixonites, falo sério: problemas cardíacos podem nos tirar a vida.
Antes da seção 'deixe-me ouvir o que o teu peito esconde', a jovem fora convidada a fazer um eletrocardiograma:
- Uhum, fiz que sim com a cabeça.
- Moça, final do corredor. Aguarde e te chamarão pelo nome.
- Uhum, fiz que sim com a cabeça.
O telefone do laboratório toca. A atendente fala algumas bobagens em protótipo de código para o outro alguém na linha. Admito estar curiosa em saber do que falam, mas me perco olhando as gotas de chuvas que teimam em cair pelo lado de fora. Na esquerda, o rapaz de branco me observa de lado - eu sei que sim, e não é por falsa modéstia - enquanto finge apertar uns botões, como se mandasse uma informação de extrema relevância por via de um fax cinza, meio escuro, meio novo.
Três minutos depois [ou um pouco menos], aquele de branco me chama pelo primeiro nome. Sigo alguns poucos passos e estou dentro de uma sala. Ele pede cordialmente que eu tire tudo o que fosse metálico, inclusive óculos e uma correntinha; além do casaco que visto - apesar de este não conter nada de metal. Também pede que eu abra o meu sutiã. Não faço recusa. Tudo muito profissional, tal qual esses exames devem ser.
Ao deitar, ele me pergunta se costumo visitar o consultório com freqüência. Digo que não, graças que não sofro nenhum mal aparente do coração. Após o breve diálogo, um gelado é colocado em meus pulsos e tornozelos. Trata-se de um tipo de gel que possibilitará o contato entre o equipamento para medição e os meus batimentos. Faceiramente, o guri levanta a minha blusa. 'Calma, sem alardes', pensei. Mais gel na região do colo. 'Não tem segredo, menina', mentalizo comigo, 'É só um exame'. Ao tempo que pronuncio em suspiro a última vogal da palavra 'exame', percebo que o moço tirara que o meu sutiã recém aberto. Os seios ficam a mostra. 'Mais calma, pequena. Mais calma', penso novamente em tom de mantra, 'É só um exame inocente, não há o que temer'. Descaradamente, ele mantém os olhos fixos como se estivessem enjaulados em alguma cápsula temporal.
Silêncio, um pouco.
- E (...) Doeu pra furar?
- Nadinha.
Três minutos depois [ou um pouco menos], aquele de branco me chama pelo primeiro nome. Sigo alguns poucos passos e estou dentro de uma sala. Ele pede cordialmente que eu tire tudo o que fosse metálico, inclusive óculos e uma correntinha; além do casaco que visto - apesar de este não conter nada de metal. Também pede que eu abra o meu sutiã. Não faço recusa. Tudo muito profissional, tal qual esses exames devem ser.
Ao deitar, ele me pergunta se costumo visitar o consultório com freqüência. Digo que não, graças que não sofro nenhum mal aparente do coração. Após o breve diálogo, um gelado é colocado em meus pulsos e tornozelos. Trata-se de um tipo de gel que possibilitará o contato entre o equipamento para medição e os meus batimentos. Faceiramente, o guri levanta a minha blusa. 'Calma, sem alardes', pensei. Mais gel na região do colo. 'Não tem segredo, menina', mentalizo comigo, 'É só um exame'. Ao tempo que pronuncio em suspiro a última vogal da palavra 'exame', percebo que o moço tirara que o meu sutiã recém aberto. Os seios ficam a mostra. 'Mais calma, pequena. Mais calma', penso novamente em tom de mantra, 'É só um exame inocente, não há o que temer'. Descaradamente, ele mantém os olhos fixos como se estivessem enjaulados em alguma cápsula temporal.
Silêncio, um pouco.
- E (...) Doeu pra furar?
- Nadinha.