domingo, 9 de dezembro de 2007

Veludo azul.

Filmes de cronologia barata em aspectos previsíveis sempre me fogem á mão. Ás vezes, claro, jogam-me para cima desses contos melodramáticos, com musiquinhas cativantes que não saem da nossa cabeça assim que ouvidas numa primeira vez.

Foi mais ou menos isso.

Tarde de outubro, muita ilusão na cabeça e a vontade de fazer nada falando alto. Em grito oposto, o João passa em casa, me joga dentro do seu carro e me enforca naquela sessão de cinema absurda na casa de algum amigo tosco dele.

- Essa que é a tua amiga? - perguntaram-lhe.
- A própria - disse João entre um 'Oi, beijo', com esse tal amigo que nos recepcionou.
- O João fala horrores de ti, guria.

Eu não sabia o que responder. Não mesmo. Esse tipo de situação de amigo que fala da amiga para os outros amigos que essa mesma amiga só conhece de nome não é o meu forte. Ah, sim, ser sociável á primeira vista também não.

Continuo:

- Não sei o que o J. fala de mim - suspirei alto.
- Não faço mistério, amor. Todo mundo sabe que eu te adoro um tanto - gritou J. na minha orelha, ao passo que me dava um abraço gostoso e me oferecia algo pra beber.

Enquanto percebo os detalhes do copo, com desenhos de caveiras e outras bizarrices tipicamente horror-show, um algo de interessante pede para ser visto do outro lado.

O modo como fingia não me olhar foi elemento propulsor para o meu encanto gratuito - além de me chamar a atenção pela camiseta com o Bowie na frente. Ele parecia ser mais velho, parecia ter controle e saber exatamente quando perdê-lo. Sentava-se de lado, e sentia um conforto absurdo com tudo aquilo. Amigos ou não, eu e o desconhecido em questão, estávamos sucintos por alguma tentativa de cinema.

Com um outro copo, me deixou na dúvida se bebia o mesmo que eu. E, dúvida por dúvida, tive vontade de saber do gosto.

- Tás bebendo o que?
- Prova. A Carol esqueceu o copo aqui do lado. Deu bobeira - sorriu.
- Forte. Hum, parece absinto.
- Isso, pode crer. Sem dúvidas: absinto. Sente?
- O quê?
- Perguntei se sente.
- Tá, essa parte eu entendi.
- E por que não responde.
- Responder o que?
- O que sente.
- Eu posso sentir tanto.

Não precisou de muito. Tinhas que ser tão cordial comigo, e corresponder ao meu cumprimento forçado? O pensamento instintivo me levou a acreditar que seria melhor ter recuado ao João horas antes, e ficado em casa pela eternidade.


[Parte II: da arte de não ligar no dia seguinte]

Sei que não tenho a elegância nem o modo certo de pedir; mas, por favor, não seja assim tão afável comigo. Não me olhe nos olhos, não me pegue pela barra da calça, não me tenha por cada segundo, e não me faça perder a vontade de assistir David Linch no momento em que conversamos em segredo.

Não me entenda quando eu quero dizer sim pelo não, ou vice-versa. E, definitivamente, não diga que tem a coleção completa de Tarantino na tua casa. Assim, dificultas o meu declínio pelo convite teu.

Não seja doce comigo, e nem me beije devagar. Faça tudo ao contrário, facilite o meu desapego. E, não seja o que és comigo. Afinal, o teu encanto já nivelou o inesperado.

Em frente à batalha, eu já sei de cor a tua seqüência.
Sem obrigação.