Foi mais ou menos isso.
Tarde de outubro, muita ilusão na cabeça e a vontade de fazer nada falando alto. Em grito oposto, o João passa em casa, me joga dentro do seu carro e me enforca naquela sessão de cinema absurda na casa de algum amigo tosco dele.
- Essa que é a tua amiga? - perguntaram-lhe.
- A própria - disse João entre um 'Oi, beijo', com esse tal amigo que nos recepcionou.
- O João fala horrores de ti, guria.
Eu não sabia o que responder. Não mesmo. Esse tipo de situação de amigo que fala da amiga para os outros amigos que essa mesma amiga só conhece de nome não é o meu forte. Ah, sim, ser sociável á primeira vista também não.
Continuo:
- Não sei o que o J. fala de mim - suspirei alto.
- Não faço mistério, amor. Todo mundo sabe que eu te adoro um tanto - gritou J. na minha orelha, ao passo que me dava um abraço gostoso e me oferecia algo pra beber.
Enquanto percebo os detalhes do copo, com desenhos de caveiras e outras bizarrices tipicamente horror-show, um algo de interessante pede para ser visto do outro lado.
O modo como fingia não me olhar foi elemento propulsor para o meu encanto gratuito - além de me chamar a atenção pela camiseta com o Bowie na frente. Ele parecia ser mais velho, parecia ter controle e saber exatamente quando perdê-lo. Sentava-se de lado, e sentia um conforto absurdo com tudo aquilo. Amigos ou não, eu e o desconhecido em questão, estávamos sucintos por alguma tentativa de cinema.
Com um outro copo, me deixou na dúvida se bebia o mesmo que eu. E, dúvida por dúvida, tive vontade de saber do gosto.
- Tás bebendo o que?
- Prova. A Carol esqueceu o copo aqui do lado. Deu bobeira - sorriu.
- Forte. Hum, parece absinto.
- Isso, pode crer. Sem dúvidas: absinto. Sente?
- O quê?
- Perguntei se sente.
- Tá, essa parte eu entendi.
- E por que não responde.
- Responder o que?
- O que sente.
- Eu posso sentir tanto.
Não precisou de muito. Tinhas que ser tão cordial comigo, e corresponder ao meu cumprimento forçado? O pensamento instintivo me levou a acreditar que seria melhor ter recuado ao João horas antes, e ficado em casa pela eternidade.

Sei que não tenho a elegância nem o modo certo de pedir; mas, por favor, não seja assim tão afável comigo. Não me olhe nos olhos, não me pegue pela barra da calça, não me tenha por cada segundo, e não me faça perder a vontade de assistir David Linch no momento em que conversamos
Não seja doce comigo, e nem me beije devagar. Faça tudo ao contrário, facilite o meu desapego. E, não seja o que és comigo. Afinal, o teu encanto já nivelou o inesperado.
Em frente à batalha, eu já sei de cor a tua seqüência.
Sem obrigação.