quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Se o sistema não funciona, bota na conta do Papa!

Mais de 2 milhões de pessoas já assistiram o tão alardeado filme 'Tropa de Elite'. O detalhe fica por conta de que, além desse número alarmante, outros milhares tiveram acesso a película por meio de versões pirateadas.

Entenda-se por pirateadas todo um sistema: primeiro o filme original nasce na cabeça do diretor. Este escolhe os atores a dedo, idealiza as cenas, promove a produção da história e, enfim, consegue terminar o longa. Após muito trabalho - diga-se de passagem um bocado de trabalho, visto a falta de investimentos ao cinema nacional - esse mesmo diretor consegue algum patrocínio, o que fomenta a divulgação do filme.

No caminho inverso, a pirataria desenvolve uma ação parasita e rouba os direitos de seu verdadeiro criador. Com pouco esforço, grandes nomes do esquema que pirateia essas cópias adquirem um único exemplar da versão original - muitas vezes antes da chegada deste as telas do cinema - e reproduzem milhares de cópias. Afinal, a demanda por estes produtos é considerável e conta com um público cativo.

Enquanto o enredo do filme cai no clichê brasileiro de vários palavrões soltos em frases aplicáveis, que condenam a realidade banal do nosso país, a trama joga na cara do receptor 'sim, você faz parte do sistema'. Esse sistema, segundo o próprio 'Tropa', foi instalado para solucionar problemáticas nacionais. No entanto, o sistema (na prática) existiria para tentar estabelecer um controle que solucione os problemas desse mesmo sistema.

Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, talvez não soubesse que aquele não é o único 'sistema' neste vão solo tupiniquim. Nós, brasileiros, gostamos de impor normas pelo simples prazer de quebrá-las.

[In]utilidade do Sistema

Diz a regra que a funcionalidade de um sistema é contribuir para organizar um todo; na polícia, por exemplo. Na política também seria. Nesse sentido, um assunto em especial me chama a atenção quando o comparo com outras notícias: a CPMF (Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores).

Para quem ainda não sabe, esse imposto nasceu sob argumento de (pseudo) imposto, que teria a prerrogativa de angariar mais fundos para auxiliar o Governo nos investimentos em saúde pública. Temos ai outro sistema. Podemos não percebê-lo, mas temos um.

A decisão do momento é falar absurdos que anunciam que sem a CPMF o sistema de gestão da política nacional vai por água a baixo, por falta de dinheiro. Ora, mas o nosso país já dispara perante os outros no que tange os impostos; porque então nos falta a verba que deveria provir desse pagamento?

A resposta é simples e está aos nossos olhos. Temos um sistema que não funciona. Ou pior, nenhum dos sistemas existentes para a organização e ordem do Brasil consegue desempenhar o seu papel.

A CPMF pode ser o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), assim como foi mostrado no 'Tropa'. O imposto age silenciosamente sob um mecanismo que atua na mesma sensibilidade de um projétil; ambos não avisam quando serão acionados, apenas fazem o que o sistema os manda. O fato é que tanto o imposto como o Bope são formas de sistemas em nosso país. Sistemas que não desempenham a sua real função.

O cidadão comum pode demonstrar que está de saco cheio de corrupção, cansado da violência, e do estado paralelo nas favelas. Porém, este cidadão não é capaz de nada enquanto for obsoleto ao sistema. Nem enquanto for cúmplice de uma cópia pirata, que retrate a ineficiência deste sistema que ele contribui para que continue do modo como está.

E quando falta competência, o jeito é colocar na conta do Papa, líder de outro sistema: o religioso.

Que Deus nos ajude!
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Anexo necessário: 45 versus 34, Brasil.

Esse texto fora desenvolvido para a matéria Redação B há um ligeiro tempo atrás. Talvez outubro, a memória é falha. Entretanto, estava devidamente guardado, na espera de momento mais oportuno para entrar [em colchetes]. Feito isso, agora me pergunto: essa é a hora?