Ser tia é atravessar a rua com cuidado, para que nenhum carro em alta velocidade afronte tirar-lhe a vida antes de a sua sobrinha ter aquela tão sonhada festa de 15 anos. Ser tia é pensar no que os sobrinhos vão achar do tio que a tia escolheu para eles. Ainda mais quando esse tio é todo-doido, tattuado, com alargador nas orelhas, e tem cara de bravo.
Em outras palavras, essa que vos escreve é tia de uma sobrinha linda e de um sobrinho tão lindo quanto. Agora, para que o entendimento da história toda tenha a completude que o assunto pede, é necessário contá-la desde o seu início.
A minha saga como tia-me-dá-um-abraço começou cedo. Bem cedo, eu diria. Culpa da irmã que veio dar a notícia em 1994, e surpreendeu a pequena Talita recém saída do prézinho. 'Tudo bem, ser tia não deve doer nada'. E, eu não era aquele tipo de criança ciumenta, que não consegue conviver com outras crianças nem dividir os seus brinquedos com elas. Pelo contrário, a minha mãe conta com freqüência da minha sociabilidade desde quando eu era pequena. No entanto, hoje, admito que a minha cabeça podia ter ficado bastante confusa se eu pensasse demais na dimensão que é ser tia.
Para a grande maioria, ser tia não envolve apenas o fato de ter um sobrinho ou uma sobrinha. Ser tia, neste caso, é 'ficar para titia'; jargão muito usado para distinguir pessoas sem muita sorte com relacionamentos. Contudo, a minha perspectiva de vida nos anos 90 não conseguia pensar nisso, compreendia apenas a rotina: ir para a escola, brigar com o meu irmão mais velho, pensar no que eu queria ganhar de Natal, e outras coisas desse quilate - não com menos importância, friso; afinal, é na infância que se constrói uma cabeça bacana para agüentar a dualidade da adolescência e as futuras responsabilidades que se ganha quando as pessoas se tornam adultas.
Pois bem, tempos depois, vejo uma segurança tremenda na minha situação de ser tia. Aprendi um bocado. E, olha que eu nem sou tão museu assim. Acho incrível a amizade que tenho com a minha sobrinha. Ultrapassamos o limite sócio-cultural tia e sobrinha, somos boas amigas. Acho um barato quando a Raphaela vem me contar os casos da vida dela, os guris que acha bonito e os que já beijou, o medo que tem da mãe, as vontades que tem, os anseios, a perspectiva remota que considera que o seu mundo é cor de rosa e que tudo pode ser perfeito. Cerco-me de cuidados para respondê-la á altura, não deixá-la com mais dúvidas do que as que já tem. Imaginem a cabeça da minha querida: treze anos, 1.70 de altura, rosto novo, enfim. Uma rede de pensamentos de autonomia própria a perseguem. Mesmo assim, quanto á Rapha, acho que estamos bem.
Se por algum momento pensei que a minha cota de cordialidade com os filhos dos meus irmãos já excedia um limite, fui altamente surpreendida no ano passado. Minha irmã, que me deu aquela notícia em 94, veio me dizer o mesmo anos depois. Dessa vez, viria um menino. Antes que o pequeno nascesse, eu já imaginava o seu rostinho, se teria ou não covinhas, se ia me chamar de tia, se ia gostar de sorvete de baunilha (...) Uhum, a Talita pode ser declarada uma tia absurdamente coruja, e assumida.
O Ismael nasceu em abril do ano em que estamos. Parece ás vezes comigo, mas consegue ser tão diferente também. O Tiquinho é muito 8 ou 80, não consegue ficar parado. Gosta de danoninho de morango, e gosta de dengo. É intimista, não dá trela pra quem não conhece. E eu vejo tanta beleza nisso. Taurino, esse guri vai me ferrar a vida algum dia - eu bem sei que vai e não faço omissão. Tanta geniosidade vai me dar dor de cabeça; do mesmo jeito que a Rapha me deixa puta com o seu lado virgo de ser. Dois amores que eu quero ver crescer, com pensamentos próprios e pelo caminho que decidirem.
Em mais de uma década como tia, sinceramente, fiquei para titia. O detalhe eu deixo por conta dos tios que os meus sobrinhos vão poder escolher.
Ressalva: modéstia mandou lembrança, ein Talita?
Em outras palavras, essa que vos escreve é tia de uma sobrinha linda e de um sobrinho tão lindo quanto. Agora, para que o entendimento da história toda tenha a completude que o assunto pede, é necessário contá-la desde o seu início.
A minha saga como tia-me-dá-um-abraço começou cedo. Bem cedo, eu diria. Culpa da irmã que veio dar a notícia em 1994, e surpreendeu a pequena Talita recém saída do prézinho. 'Tudo bem, ser tia não deve doer nada'. E, eu não era aquele tipo de criança ciumenta, que não consegue conviver com outras crianças nem dividir os seus brinquedos com elas. Pelo contrário, a minha mãe conta com freqüência da minha sociabilidade desde quando eu era pequena. No entanto, hoje, admito que a minha cabeça podia ter ficado bastante confusa se eu pensasse demais na dimensão que é ser tia.
Para a grande maioria, ser tia não envolve apenas o fato de ter um sobrinho ou uma sobrinha. Ser tia, neste caso, é 'ficar para titia'; jargão muito usado para distinguir pessoas sem muita sorte com relacionamentos. Contudo, a minha perspectiva de vida nos anos 90 não conseguia pensar nisso, compreendia apenas a rotina: ir para a escola, brigar com o meu irmão mais velho, pensar no que eu queria ganhar de Natal, e outras coisas desse quilate - não com menos importância, friso; afinal, é na infância que se constrói uma cabeça bacana para agüentar a dualidade da adolescência e as futuras responsabilidades que se ganha quando as pessoas se tornam adultas.
Pois bem, tempos depois, vejo uma segurança tremenda na minha situação de ser tia. Aprendi um bocado. E, olha que eu nem sou tão museu assim. Acho incrível a amizade que tenho com a minha sobrinha. Ultrapassamos o limite sócio-cultural tia e sobrinha, somos boas amigas. Acho um barato quando a Raphaela vem me contar os casos da vida dela, os guris que acha bonito e os que já beijou, o medo que tem da mãe, as vontades que tem, os anseios, a perspectiva remota que considera que o seu mundo é cor de rosa e que tudo pode ser perfeito. Cerco-me de cuidados para respondê-la á altura, não deixá-la com mais dúvidas do que as que já tem. Imaginem a cabeça da minha querida: treze anos, 1.70 de altura, rosto novo, enfim. Uma rede de pensamentos de autonomia própria a perseguem. Mesmo assim, quanto á Rapha, acho que estamos bem.
Se por algum momento pensei que a minha cota de cordialidade com os filhos dos meus irmãos já excedia um limite, fui altamente surpreendida no ano passado. Minha irmã, que me deu aquela notícia em 94, veio me dizer o mesmo anos depois. Dessa vez, viria um menino. Antes que o pequeno nascesse, eu já imaginava o seu rostinho, se teria ou não covinhas, se ia me chamar de tia, se ia gostar de sorvete de baunilha (...) Uhum, a Talita pode ser declarada uma tia absurdamente coruja, e assumida.
O Ismael nasceu em abril do ano em que estamos. Parece ás vezes comigo, mas consegue ser tão diferente também. O Tiquinho é muito 8 ou 80, não consegue ficar parado. Gosta de danoninho de morango, e gosta de dengo. É intimista, não dá trela pra quem não conhece. E eu vejo tanta beleza nisso. Taurino, esse guri vai me ferrar a vida algum dia - eu bem sei que vai e não faço omissão. Tanta geniosidade vai me dar dor de cabeça; do mesmo jeito que a Rapha me deixa puta com o seu lado virgo de ser. Dois amores que eu quero ver crescer, com pensamentos próprios e pelo caminho que decidirem.
Em mais de uma década como tia, sinceramente, fiquei para titia. O detalhe eu deixo por conta dos tios que os meus sobrinhos vão poder escolher.
Ressalva: modéstia mandou lembrança, ein Talita?