França, cinema, garrafas de vinho, sexo, rock, Godard, e três jovens assiduamente belos, podem servir de temática para uma história com facilidade considerável. Elementos a altura para a criação de um filme não faltam. Foi mais ou menos por isso, ou bem mais que isso, que 'Os Sonhadores' mostrou-se de interesse para esta que vos escreve. Tomadas leves e atraentes saídas da cabeça do diretor Bernardo Bertolucci - famoso pelo agraciado 'Último Tango em Paris' - tornam a película ainda mais vibrante e cheia de detalhes pequenos, grandes, e cativos. Porém, não me atrevo a soar como cineasta (que não sou) ou cinéfila (por devoção, apenas), uma vez que cinema está muito além dos meus conhecimentos técnicos. Porém, como pseudo-amante da arte, acho cabível tecer argumentos pendentes. Ainda mais, depois de assistir a trama e pensar em uma série de outras coisas, ligadas ou não ao filme.'Os Sonhadores' supera as críticas iniciais que o público registrou. Ouvir comentários tendenciosos referentes aos cartazes do filme, que dão margem suave ao romance e ligações amorosas protagonizados, ainda é pouco. Dois irmãos gêmeos: logo Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel). Ambos viciados em cinema; filhos de uma inglesa e de um pai-poeta-francês demasiadamente pensador; e habitantes de uma casa que poderia ser apenas uma casa, mas não é. Quase no final da década de 60, esses gêmeos siameses conhecem Matthew (Michael Pitt), americano que vai á Paris para estudar e se apaixona pela cultura que os ares parisienses inspiram. O roteiro segue basicamente este caminho.
Contudo, a armadilha de 'Os Sonhadores' não se prende apenas aos corpos dos jovens, que ficam á mostra com uma freqüência considerável, ou ás loucuras que os três discutem nas cenas. O título não serve de pano de fundo. Bertolucci teve mais do que sorte em optar por tal escolha. Os sonhadores somos nós, durante as quase duas horas de enredo. Em uma época revolucionária, cercada de dramas e sorrisos aleatórios, torna-se irremediável não se envolver no conteúdo e nas vidas dos adolescentes. Com 'Os Sonhadores', á época de 1968, na mesma Paris de hoje, um protesto estudantil em nuances de política á favor do cinema é abordado. Revolucionários dão início a um manifesto em favor da arte e da liberdade que desperta a alma juvenil - independentemente da idade que se tem. E mais, o filme foi rodado em 2004, no entanto ainda apresenta um teor de atualidade visível. Na França mesmo que seja, para não perdermos o foco, jovens ainda protestam e se revoltam perante á política e a todo o sistema que cerne a vida pública da sociedade. Nota-se a realidade do passado, e a que vivemos nos tempos de hoje.
Para quem sofre em busca de filmes clássicos nas locadoras á fora, 'Os Sonhadores' é novo e antropofágico do que já aconteceu. Simultaneamente. Enquanto Matthew, Isabelle e Theo dividem a mesma banheira e se concentram em observar os traços alheios, você provavelmente se perde no diálogo dos três e parece estar naquela banheira também.
"Agora você é um de nós".
PS: um brinde ao melhor do ócio universitário.