sábado, 7 de julho de 2007

Desatino e espelhos

Abrir o diário. As paredes em nuances perspectivas e o som alto, tocando qualquer sonoridade já conhecida pelos vizinhos. O sono é estático, desejo de não dormir – propositalmente – só para ver o Sol invadir o travesseiro em forma de abraço. Estupidez, pura bobagem.

A conversa é atrativa, imaginando o dono dos olhos que está do outro lado:

– Acho muito louco, isso de ficar pensando sem assunto determinado. Só por pensar, esse é o barato. Agora, escolher é imprevisível.
– Eu até entendo. Escolher envolve pensamentos (...)
– Sim. Mas, pra pensar você tem um controle. Pra escolher, não.
– Concordo em termos contigo, guri. Só que, pior que escolher é ter vontade. A gente não sabe de onde ela vem e tal. Escolhas, em sua maioria, sempre partem de um fundamento. Agora, me explica o mecanismo das vontades e eu prometo te deixar bêbado.

E ele a achou inteligente – pura tolice etílica. Por diferença, até falou 'boa noite, beijos'. Ela se contorceu em risadas.

Um dia a mais, um trago a mais. Aquele sorriso desmedido, entregue em mensagens sem entrega, soando complexo. Sem ter o que fazer por cabimento ávido. Os dias soltos, em hiatos desesperados, fazem da roteirista uma melodia instintiva; ela acabara de receber um rascunho premeditado em verdades já conhecidas:

"Sempre evitei ser rude contigo. Tratá-la com um desprezo que não és merecedora. Por ora, és tu que fazes o bem de mim, e me tira o mal sem assumir. O que me intriga é saber do vício que tenho nesse teu ar, que respiro roubado de ti. Sinto-me incabivelmente satisfeito com o teu olho brilhando de longe, e a tua pupila mirando alto os sonhos teus. Sonhos que queria ter, por devoção ao teu ego. Não sou poeta, por falha genética, me caibo em números e porcentagens, porém me habituo em ler Chico por ti. No entanto, meus escritos figuram fórmulas, tentativa e erro, pois não tenho o vínculo á palavra. Me atrevo porque és ousada ao máximo. E essa minha mania de pegá-la desprevenida e demonstrar que tu também tens um pouco de mim não funciona, por conta da tua liberdade domada. Poderia eu, me transformar em delegado e escravizá-la ao meu encanto. Contudo, és livre e doce. Tens a graça no jeito de andar sem dono algum."

Após a breve leitura, ela dobra o papel e o guarda dentro de um livro qualquer. Volta ao caminho, como se nada tivesse ocorrido.